Tenho medo
Sim, eu sou normal eu tenho medo. Tenho medo de tudo um pouco. Isso não quer dizer que eu seja medrosa. Tenho medo do que eu possa vir a ser.
Já ouvi gente que disse que estou numa nova fase, numa fase de amadurecimento. Às vezes discordo, sou uma verdadeira criança - mas gostaria deixar de ser.
Talvez eu esteja num momento de crise, apenas. Toda mudança rompe preceitos. Estou filosofando não sobre questões abstratas como o sentido da vida, mas qual o sentido da minha vida. Ou melhor, qual o sentido que eu quero dar.
O final de ano nos contagia com aquele "espírito de balanço", e aí nós fazemos uma retrospectiva. Devo lembrar que isso nem sempre é bom, pois é o período em que mais ocorrem suicídios no ano. É, meu amigo, se você fez cagada durante o ano inteiro, esse período dá um desespero.
Não acho que fiz grandes cagadas nesse ano. Eu vivi. Sim, pela primeira vez, vivi. Sempre fui a pequena rosa do pequeno príncipe, que vivia numa redoma. Ainda estou ensaiando os primeiros passos. É difícil aprender engatinhar.
Nesse espírito penso no que fiz, no que não fiz e no que posso modificar. Graças à terapia tenho tido algumas mudanças e consigo não me açoitar mais por não ter feito tudo, e ainda por cima certinho, como eu havia planejado.
Mas em um aspecto senti-me triste, vazia, com uma vontade inédita de chorar. Não, não é mais o choro da menina mimada, chorona. Sinto-me feliz e triste ao mesmo tempo. Feliz, porque o meu choro é de quem fez. Sim, senti-me triste por ter saído meio torto, mas feliz porque EU FIZ.
EU VIVI, REALIZEI, RESPIREI. EU CONSEGUI.
O Que saiu torto, tu te perguntas? Saiu torto o que eu não fiz, o que eu deixei de realizar, o que eu podia viver e não vivi e por ser mosca mesmo. Os filmes que nunca vi; as transas que nunca fiz; o kama sutra que não conseguia fazer; a cama redonda que não experimentei; as fantasias que não realizei; o silêncio que deixei; a praia que não conheci; a pizzaria que eu gostaria de jantar, mas não jantei por não ter companhia; os amigos que não conheci; as pessoas que não conheci; as fotos que não tirei por não ser tão fotogênica; as conversas que nunca tive; as cervejas e as bebidas que não tomei; os passeios que nunca tive; os lugares que não conheci e finalmente os verdadeiros rostos que não conheci.
Gostaria de ter feito um pouco mais dessas coisas. Tá, Deus, eu sei que não sou você. Eu só quero viver.
Pensei e constatei que não vivi o que eu queria viver. Eu pensei que passados sete meses de um acontecimento importante, eu não vivi o que eu queria. Continuo sendo a mesma menina recatada que quase não sai, não bebe, não faz folia. E eu tinha oportunidade para ter feito isso. E eu não fiz. Vivo a normalidade e beiro à rotina.
Pensei também porque isso aconteceu. Pô, se eu quero viver, porque não vivo? Por quê não consigo viver? Eu tenho dificuldades de sair do ninho, e preciso de alguém para me pegar pela mão. E eu não sou apática e sem vida. Eu quero sair, me divertir, chega de falar de faculdade, de Direito, de livros. Eu quero realizar minhas fantasias, e não chegar ao final do dia com um pacato “Eu te amo”. Eu tenho vontade de ir a barzinhos, de conhecer motéis, de aprender e não deixar que façam tudo por mim.
Não se constranja, caro leitor. Você não está sendo intrometido, mas está com razão ao perceber que estou escrevendo para uma pessoa específica. Uma pessoa só.
Falando para essa pessoa então: Me ajuda a viver! Eu sei que você não pode viver por mim, mas eu quero me divertir cada vez mais! Eu estou com sede! E viva também, porra. Porque não vai mais a festas? Quebraste teu círculo social? Porque só vive praticamente pra mim? Não, não estou viajando. Eu quero continuar a amar você, e a luz a felicidade dos seus olhos reflete em mim. Eu gosto do Carlos feliz.
Eu estou feliz. Você está feliz, ou não. O amanhã nós construímos hoje.

